O caminho do monge guerreiro: a falsa dicotomia entre campo e laboratório

14/01/2020

Texto de Fernando Lima

Nos idos da década de 90,  a internet era quase uma entidade. Pelo menos era assim no interior de Minas. Havia cochichos pelo corredor do colégio do tipo:

Aquele cara tem internet em casa… Oooooooohhh

Nessa época, no auge do marasmo do 2º Grau e displicência adolescente, o tempo em sala de aula era dividido entre dormir e ler As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley. Estava tão absorto com a história que matava aula para ficar na biblioteca da escola pesquisando sobre o contexto histórico do livro. Infelizmente, nenhum dos caras e meninas que tinham internet em casa atendiam aos meus pedidos de olharem na internet onde ficava Londiniun, entre outras coisas. Para saber que Londiniun era o embrião do que hoje é Londres, tive que passar horas procurando enciclopédias na biblioteca do colégio, além de ser reprovado em Educação Física por faltas.

Numa destas visitas, sentado no chão lá no fundo de um dos corredores para não ser pego pelo diretor, lembro de folhear um livro que tinha a pintura de um cavaleiro templário. Na imagem o cavaleiro estava ajoelhado em uma igreja, rezando em frente a um altar de pedra, mas à sua frente ele se apoiava com uma espada. Essa imagem foi adubada por muitos anos na minha cabeça por dezenas de textos, documentários, filmes e teorias da conspiração, e muita, muita imaginação… Ignorando a questão histórica e religiosa que isso envolve e focando apenas na mitologia dourada do cavaleiro…

“…lembro de folhear um livro que tinha a pintura de um cavaleiro templário…”

O fato é que a imagem do monge-guerreiro, um membro de uma ordem religiosa celibatária combinada com um extenuante treinamento militar sempre me vem à cabeça quando um tema aparentemente desconexo vem à tona.

Desde a época da graduação, notei que existiam arestas entre os que se consideravam pesquisadores de campo e os que tinham perfil acadêmico. Pouco antes de me graduar em Ciências Biológicas em 2003, estava me preparando para me mudar de mala e cuia para o interior de São Paulo. Dois momentos neste período exemplificaram para mim essa dicotomia. Um foi em campo, ainda como estagiário, quando, entre um cigarro de palha e outro, um professor me perguntou:

E aí? Você já tem o seu facão?

Em outro momento — sem cigarro de palha desta vez — outro professor me aconselhava:

Você tem feito muito trabalho de campo e vai continuar fazendo agora, depois de formado. Mas nunca deixe de ler, mesmo que esteja muito cansado no final do dia. Não se torne um mateiro-com-diploma.

Durante meus primeiros de atuação fui basicamente isso: um mateiro com diploma. Passava o tempo todo no campo. Não queria outra coisa, afinal era essa a intenção desde o início! Passar o dia no mato procurando bicho! No entanto, quando se vive intensamente apenas a realidade de campo, é muito fácil cair na armadilha de que o cara do laboratório/escritório não entende as dificuldades e realidades de quem está na linha de frente coletando os dados. Tempere isso com tempo para pensar enquanto anda pelos rincões e temos as velhas discussões entre desenho amostral adequado e o que dá pra fazer no campo.

Com o passar do tempo, ficou cada vez mais difícil ficar tanto tempo em campo. Relatórios para entregar, prazos, propostas para submeter, cobranças, enfim… Com o mestrado o lado nerd predominou, e finalmente entendi a importância da parte analítica e da pesquisa baseada em ciência. Na época, fui convidado para colaborar no delineamento amostral e análise de dados de diversas pesquisas. Para minha surpresa, passei a ser acusado pelos colegas que estavam coletando os dados de estar do lado de lá: o lado dos caras que não sabem nada da realidade e dificuldade de campo, e só pensam em publicação. Hein?

Existe mesmo esta dicotomia? Infelizmente a resposta parece ser sim. Agora talvez mais do que nunca. Os avanços na capacidade de processamento de grandes conjuntos de dados integrando variáveis de maneira impensada a 10 anos atrás tornou praticamente obrigatório dominar minimamente alguma linguagem de programação nos círculos acadêmicos. A revolução causada pela linguagem R mudou a cara e as regras da pesquisa no mundo todo (Python também é legal, viu gente, e dêem graças a Deus de não terem que aprender SQL para trabalhar com bancos de dados).

O cara do campo olha torto para o cara do R:

Esse cara nunca viu o bicho que tá modelando, pega esse monte de variável climática e joga na panela de pressão para ver o que dá. Fica aí se achando o Sheldon do The Big Bang Theory e todo mundo paga pau.

O cara do R olha torto para o cara do campo:

Esse cara não entende nada de ecologia, não tem delineamento amostral nem pergunta, amarra os dados e não faz nada com eles. Fica só aí tirando onda de Indiana Jones e todo mundo paga pau.

Aí eu lembro do cavaleiro templário ajoelhado na igreja com uma long-sword. Felizmente, durante a maior parte da minha vida profissional tive a oportunidade de participar de iniciativas pautadas por princípios da Biologia da Conservação, onde os diferentes perfis são valorizados. Vejo o mesmo no Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação, da UNESP Rio Claro, onde tenho a oportunidade e privilégio de fazer parte, e percebo que outros laboratórios caminham na mesma direção. É preciso ter o “cara do campo” e o “cara do R”. Os dois extremos ajudam o cara do meio, que consegue fazer um pouco dos dois.

O profissional que quer fazer real diferença em conservação deve transitar entre mundos.

O profissional que quer fazer real diferença em conservação deve transitar entre mundos, ser esse cara do meio. Ser capaz de entender os desafios da coleta de dados em campo, e ao mesmo tempo buscar atender as premissas de um bom delineamento amostral. Não é possível fazer um sem o outro.

O sorteio de pontos aleatórios no R ou em um software de sensoriamento remoto pode atender a todos os pré-requisitos de um delineamento amostral matematicamente perfeito, mas não é de grande ajuda se o acesso só é feito por helicóptero e você não tem dinheiro para isso. A recíproca é verdadeira: não adianta colocar seus pontos de amostragem apenas em áreas ótimas baseadas no seu conhecimento de história natural do organismo e conhecimento da região, e no final ter uma coleção de registros anedóticos.

Esta capacidade vai além dos dois perfis, e volto à figura do cavaleiro. Ser capaz de conversar com pessoas que vivem nos rincões do Brasil profundo e na semana seguinte ser capaz de discutir seu trabalho com cientistas do meio acadêmico. Talvez na mesma semana participar de um evento e apresentar seus resultados ao Ministério do Meio Ambiente em uma linguagem que permita que sejam usados para influenciar políticas públicas. É ser capaz de explicar sua pesquisa para a Tia Cotinha, aquela sua tia do interior que você só vê no Natal.

Seja você mais para Sheldon ou Indiana Jones, aprenda um pouco de como é o outro lado. Está modelando nicho ecológico no R? Pede para ir a campo com aquele seu colega que conhece o organismo. Não precisa bater facão nem fazer isso o tempo todo, mas história natural é fundamental, e ir a campo nos lembra que o mundo é em 3D e as paisagens são muito mais que mapas coloridos. Sem falar no crescimento pessoal, somos humanos, primatas! Liberte o aventureiro que existe em você. No mínimo terá histórias para contar que não podem ser escritas em linhas de código.

Gosta do coletinho camuflado? Estude delineamento amostral, história da ciência e aprenda o porquê de se usar estatística. Não precisa ser o cara que faz jiu-jitsu no R, apenas o suficiente para poder conversar com o cara que vai te ajudar a analisar os dados. Você está coletando dados para quê? Pelo seu prazer de ir a campo? Enxergue o mundo como o lugar assombroso e fascinante que ele é. Assuma o cavaleiro templário que existe dentro de cada um de nós, uma fé inabalável de um lado e uma espada na outra. Seja o mateiro com diploma no campo e o Neo de Matrix na frente do computador!

Seja parte dos monges-guerreiros da Conservação que conseguem transitar entre o facão e o script de R para no fim gerar ciência para a sociedade!

E seja bem vindo!

[pH]

 

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